1. Históriografia do livro e dos objetos impressos em Portugal: breve panorama O desejo de conhecer a totalidade das obras escritas e impressas em Portugal existe desde os primórdios da implantação da técnica tipográfica no reino, por volta da última década do século XV, momento em que também começa a ser conferida certa organicidade às edições. O esforço de inventa- riar os volumes existentes no reino se mostra já nas primeiras tentativas de registro dos manuscritos, seja das coleções particulares das elites letradas e dos membros da família real, seja das livrarias dos mosteiros; tal preocu- pação de registro confunde-se, em certa medida, com o próprio processo de crescimento do acervo impresso dos primeiros anos do século XVI. Nos tempos do reinado de D. Manuel I, monarca incentivador da fixação de impressores europeus ambulantes em terras portuguesas, são conhecidas as precárias listas da livraria régia, com um incipiente critério de organi- zação. Desde então, a prática de listar os volumes foi utilizada também para as livrarias de D. João III e D. Catarina, sobretudo em relação aos livros trazidos da Espanha, tornando-se uma ocupação do infante D. Duarte, bastardo de D. João III, que teve seu conjunto de livros inventariado de modo exemplar. Assim, apesar da precariedade das primeiras listas de obras impressas e manuscritas em Portugal é possível ter uma idéia de quais obras existiam na casa real 1 . ANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. VII, 2006, pp. 231-250 IMPRIMIR, REGULAR, NEGOCIAR: ELEMENTOS PARA O ESTUDO DA RELAÇÃO ENTRE COROA, SANTO OFÍCIO E IMPRESSORES NO MUNDO PORTUGUÊS (1500-1640) por ANA PAULA TORRES MEGIANI * ——————————— * Departamento de História/FFLCH/USP, Universidade de São Paulo. 1 A historiadora Ana Isabel BUESCU, em sua obra Memória e Poder. Ensaios de História Cultural (séculos XV-XVIII), à p. 148 fornece as seguintes informações:. O inventário da livraria de D. Manuel foi estudado por Anselmo Brancamp Freire, «Inventario da Guarda-Roupa de D. Manuel», Archivo Historico Portuguez, vol. II, 1904, pp. 381-417 e publicado por Sousa