Infância no inferno ou a manifestação do insólito no cotidiano das personagens de Antonio Carlos Viana Georgina Martins * O objetivo deste ensaio é investigar como a fcção é capaz de representar a manifestação do insólito no cotidiano da infância pobre, bem como o lugar da criança na literatura realista. O inte- resse pelo tema nasceu de um trabalho desenvolvido por dois anos em uma organização não governamental, na Favela da Maré (Rio de Janeiro), com crianças de oito escolas da rede pública do en- sino fundamental. Nesse espaço ocorriam situações que me pareciam tão inverossímeis que supunha que nem toda a fcção do mundo fosse capaz de explicá-las. Era como se a realidade superasse a fcção. Além de ter sido devidamente informada sobre a proibição de usar a cor vermelha em algumas áreas da favela, não só testemu- nhei o inominável como ouvi explicações insólitas que, em minha avaliação, davam conta de suavizar o sofrimento de pessoas atin- gidas pela violência. Exemplo disso era uma mãe acreditar que o flho de dez anos baleado por um policial no momento em que saía de casa para comprar pão fora vítima da ira do diabo. Com gestos dramáticos, na presença do menino acamado, a mãe afrmava que o “coisa ruim”, contrariado porque ela, em “nobre missão” religiosa, viaja-ra para levar a palavra de Deus aos descrentes, castigara seu flho. * Doutoranda em Literatura Brasileira (UFRJ). DOI: https://doi.org/10.35520/flbc.2010.v2n3a17267 ISSN:1984-7556