[ 28 ] Introdução Criar uma nova cultura não signifca apenas fazer individualmente des- cobertas ‘originais’ signifca também, e sobretudo, difundir criticamen- te verdades já descobertas, ‘socializadas’ por assim dizer; transformá-las, portanto, em base de ações vitais, em elementos de coordenação e de or- dem intelectual e moral. O fato de uma multidão de homens seja condu- zida a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato ‘flosófco’ bem mais importante e original do que a descober- ta, por parte de um ‘gênio flosófco’ de uma nova verdade que permane- ça como patrimônio de pequenos grupos de intelectuais (GRAMSCI,1987, p. 13-14). Tomamos as palavras de Antonio Gramsci (1987) para indicar os propó- sitos que guiam as refexões que compõem este texto. Não se encontrarão aqui “descobertas originais”. Ao contrário, o conteúdo é repleto de reitera- ções, sejam elas internas ao próprio texto, sejam advindas de outras publi- cações e/ou de diálogos pregressos com muitos leitores. Afnal, esta não é a primeira vez que tratamos de bases conceituais do Mestrado Profssional em Educação Profssional e Tecnológica (ProfEPT). Mas o que nos move é a tentativa de continuar discutindo, difundindo e socializando criticamente conceitos, do nosso ponto de vista, estruturantes da formação humana, inclusive no plano escolar, na contrahegemonia da lógica capitalista. Consideramos que a interlocução se renova permanente- mente, tanto porque novos sujeitos recompõem questões, ainda que anti- gas, sob distintos enfoques; quanto porque há os desafos estruturais que permanecem e os conjunturais que nos colocam mais perguntas. Insisti- mos, assim, em repetir “pedagogicamente” sínteses que tendem a agregar, não sem contradições, o pensamento crítico em educação, pois não temos dúvidas de que um curso de Mestrado é mediação importante na tentativa de se construir uma nova ordem intelectual e moral nesse campo. Com essa intenção, o texto se inicia problematizando a expressão “edu- cação profssional e tecnológica”, argumentando que o conceito mais am- plo que seria a referência institucional e pedagógica da educação con- trahegemônica seria “educação tecnológica”. Este subordinaria, em seus princípios e propósitos, a “educação profssional”, considerando a relação histórica entre a formação de trabalhadores e a divisão social do trabalho. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA: (RE) CONCEITUANDO A (CONTRA)HEGEMONIA 1 02 Marise Nogueira Ramos 2 1 O presente texto tem por base a exposição realizada na aula inaugural do ProfEPT do IFSC, IFPI, CEFET-MG e do IFSULDEMINAS de 12/04/2021. 2 Doutora em Educação, Fiocruz e UERJ. E-mail: ramosmn@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000- 0001-5439-3258.