181 HU Revista, Juiz de Fora, v. 37, n. 2, p. 181-189, abr./jun. 2011 Sub-otimização terapêutica da dislipidemia em portadores de aterosclerose coronariana significativa José Marcos Girardi * Annelisa Farah da Silva ** Felipe Chaves Andrade ** Vitor Barbosa Rodrigues ** Nádia Rezende Barbosa Raposo ** Resumo A aterosclerose é uma doença inflamatória complexa, de origem multifatorial, tendo a dislipidemia como importante fator de risco modificável para seu desenvolvimento. Neste estudo, foi avaliado o cumprimento de metas lipídicas em portadores de aterosclerose coronariana significativa, atendidos no Serviço de Car- diologia do Hospital Universitário de Juiz de Fora – MG (HU-UFJF), segundo as metas traçadas pela IV Diretriz Brasileira sobre Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Além da estatística descritiva, foram realizados o teste de análise de variância (ANOVA) seguido de teste post hoc de Tukey e o teste t de Student, admitindo-se nível de significância para p<0,05. Foram elegíveis 87 pacientes, sendo 63,2% do sexo masculi- no e 36,8% do sexo feminino, com idade média de 66,6 anos. Foram realizadas cirurgia de revascularização miocárdica (CRVM) em 46,0%, angioplastia transluminal percutânea coronária (ATPC) em 50,6% e ambos procedimentos em 3,4% dos pacientes. A prescrição de estatinas ocorreu em 87,1% dos pacientes, sendo a sinvastatina o fármaco mais frequentemente prescrito (71,2%), seguida pela atorvastatina (9,1%,), lovastatina (4,5%) e pravastatina (2,3%). As metas para LDL colesterol (LDL-C), não HDL colesterol (não HDL-C) e triglicerídeos (TG) foram cumpridas por 21,8%, 26,4% e 60,9% dos pacientes, respectivamente. Já para os níveis de HDL colesterol (HDL-C), 31,3% das mulheres e 50,9% dos homens apresentaram o cumprimento de metas. Os pacientes do sexo masculino cumpriram as metas para HDL-C e TG, enquanto os pacientes do sexo feminino tiveram apenas a meta para TG cumprida. Observou-se uma subutilização das estatinas e, em consequência, uma sub-otimização das metas preconizadas. Palavras-chave: Aterosclerose. Lipoproteínas. Metas. Doença da artéria coronariana. * Serviço de Cardiologia do Hospital Universitário (HU/UFJF). Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora, MG. Email: girardi.jm@ gmail.com ** Núcleo de Identificação e Quantificação Analítica (NUPICS/NIQUA). Núcleo de Pesquisa e Inovação em Ciências da Saúde. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora, MG. 1 IntRodução Aterosclerose coronariana é uma doença inflamatória crônica da parede arterial caracte- rizada pelo estreitamento dos vasos que suprem o coração em decorrência do espessamento da camada interna da artéria (SAAD, 2004; TALEB; TEDGUI; MALLAT, 2008). As causas mais prová- veis da aterosclerose incluem a incorporação de lipídios e elementos sanguíneos circulantes em células anormais na parede vascular e a influência de forças mecânicas e condições isquêmicas. Esta teoria inclui a atração, o depósito e a modificação das substâncias lipídicas dentro da parede arterial (SAAD, 2004). A formação da placa aterosclerótica inicia-se com a agressão ao endotélio vascular ocasionada pela interação de uma multiplicidade de fatores genéticos e ambientais (tabagismo, etilismo, ali- mentação inadequada, sedentarismo, hipertensão arterial, diabetes mellitus, estresse físico e psico- lógico, entre outros) (KASTELEIN et al., 2008; SPOSITO et al., 2007). Contudo, a elevação de lipoproteínas aterogênicas, como as lipoproteínas de baixa densidade (LDL), de densidade interme- diária (IDL), de densidade muito baixa (VLDL), e os remanescentes de quilomícrons continuam a ser o alicerce da patogênese da aterosclerose. Os níveis plasmáticos do LDL colesterol (LDL-C) é o principal alvo atual da terapia farmacológica e, mesmo com eficácia comprovada, em termos de redução de risco, outras lipoproteínas têm sido propostas como mais adequadas para atingir as