              !     ""#$               !    Do pensamento do fora: heterogêneses Sandro Kobol Fornazari * “Quanto menos as pessoas levarem a sério o pensamento, tanto mais pensarão conforme o que quer um Estado”. 1 Essa afirmação incisiva de Deleuze e de Guattari põe em relevo um das principais problemas que os autores de Mil platôs constroem quando se trata de discutir a relação entre o Estado, enquanto centralização máxima do poder, e o pensamento em sua dupla possibilidade: ou ele é de acordo com o modelo fixado pelo aparelho de Estado ou ele é sem modelo e sem fixidez, antes ele desfaz os modelos e as formas fixas, ele é fugidio, insinuante, desconcertante. Assim, por um lado, há um pensamento conformista, não no sentido de que haja conteúdos do pensamento (crenças e ideias) que sirvam como um véu para ocultar a realidade, fazendo com que se aja e se pense de maneira a legitimar um dado poder, mas no sentido de que a própria forma do pensamento é constituída de acordo com a forma desse aparelho de poder. Em outras palavras, não se trata de ideologia, mas do modo como os princípios que operam na fixação da soberania do Estado dilatam-se no pensamento. É isso o que os filósofos nomeiam como forma-Estado do pensamento. Ela possui duas cabeças: um “imperium do pensar verdadeiro” como fundação e uma “república dos espíritos livres” como fundamento. Grosso modo, a fundação diz respeito ao mito que opera o liame ou a apreensão daqueles que se submetem à soberania e o fundamento diz respeito ao logos que organiza juridicamente um pacto ou um contrato. No entanto, por outro lado, como dizíamos, há um pensamento que escapa a esse espraiamento das engrenagens do poder, que é destruidor dos modelos e das formas, um pensamento enquanto máquina de guerra que se subtrai à soberania, que é antes uma tribo nômade, isto é, o contrário do aparelho de Estado. Esse contrapensamento, Deleuze e Guattari, no “Tratado de nomadologia” vão chamar de “pensamento do fora”. Eles dizem que fazer do pensamento uma máquina de guerra significa colocá-lo numa relação imediata com o * Professor do Departamento de Filosofia da UNIFESP, Guarulhos, SP, Brasil. Contato: skf@usp.br 1 Deleuze, G.; Guattari, F. Mil platôs. Vol. 5. São Paulo: 34, 1997, p.46.