Manuscrítica § n. 43 • 2021 Homenagem revista de crítica genética Homenagem : Alfredo Bosi e a Critica genética 5 Homenagem : Alfredo Bosi e a Critica genética Philippe Willemart 1 Lamentamos muitíssimo o falecimento do professor Alfredo Bosi no dia 7 de abril de 2021. Grande leitor como já foi ressaltado na imprensa, exímio conhecedor das literaturas clássicas, europeias e brasileira, generoso em aceitar a participação em bancas de mestrado a titular, tolerante em relação a opiniões diferentes, professor de graduação exigindo a escuta atenta do desenrolar rápido de seu pensamento, não estava indiferente aos avanços da crítica genética. Ele me disse uma vez numa conversa de corredor que graças à crítica genética, a crítica literária se ampliará e beneficiará a literatura brasileira. Alguns trechos dos prefácios que escreveu para quem ele tinha “afinidades eletivas”, 2 testemunham seu interesse, sua compreensão e sua fé no futuro da nossa abordagem: No Universo da criação literária , Edusp, 1993, Alfredo Bosi intitulou o Prefácio: Nos meandros do manuscrito e lembrava a crítica das variantes exercida com perícia por mestres italianos como Gargiulio, Contini e De Robertis [...] Na hora difícil da interpretação interveio o último teórico sistemático da estética, Benedetto Croce.[...] Quando um autor cancela uma palavra, dizia Croce, ele está apagando uma díade inseparável de intuição-expressão; caso venha a substitui-la por outra, é porque uma nova imago verbal, animada por outro matiz afetiva ou cognitivo ocupou a sua consciência artística. [...] Quando encontramos rasuras, [...] estamos diante uma reestruturação perceptual, e não apenas de um ato de rigorismo estilístico praticado em abstrato, fora do nexo entre intuição e expressão. 3 Entramos, a partir dos anos 70, em plena crise da modernidade clássica. Uma das pretensões mais ardidas da chamada era pós-moderna é, precisamente, a da desintegração de quaisquer critérios canônicos de valor estético; e a consequente admissão de que as alternativas se equivalem. Não haveria mais formas nem estilos-padrão. Nessa abertura sem margens, nesse descentramento que dá vertigem, a última vontade do autor valeria tanto quanto a primeira, a segunda ou a penúltima. Não existe um texto fechada e consagrado (Louis Hay chegou a dizer: “o texto não existe”); todos os traços escritos no papel, mal apagados, rasurados ou postos à margem, interessam à curiosidade de voyeur do microanalista à cata de lapsos, recalques, sublimações, liberações frustradas ou bem logradas. 4 1 Professor Titular na Universidade de São Paulo. Laboratório do Manuscrito Literário Universidade de São Paulo. 2 Dedicatória manuscrita em Bosi, Alfredo, Entre a literatura e a história. São Paulo: Editora 34, 2013. 3 Willemart, Philippe, Universo da criação literária, São Paulo: Edusp, 1993, p.9-10. 4 Id., ibid., p.12.