A amizade em Aristóteles: Política, III, 9 e Ética Nicomaqueia, VIII 1 Inara Zanuzzi inarazanuzzi@ufpr.br Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil resumo Na Política, III, 9, Aristóteles desaprova a distribuição de poder da constituição democrática dizendo que esta serve ao fim da amizade, a saber, a convivência, mas não ao fim político. Nosso propósito aqui é procurar esclarecer por que uma comunidade política não é, sem qualificação, uma comunidade de amigos, utilizando-nos da definição e análise aristotélica da amizade na Ética Nicomaqueia, VIII. O resultado obtido é que toda associa- ção, inclusive a política, tem um tipo de amizade que lhe é relativa, determinado pelo seu fim e pela distribuição das funções e das vantagens. A associação política tem por fim algo diverso da mera convivência. Por isso, é na medida em que a distribuição é feita para obter esse fim que existe alguma amizade entre os membros da associação política e não na medida em que esses querem simplesmente conviver uns com os outros, como implicita- mente suposto na distribuição democrática. palavras-chave Aristóteles; Amizade; Política; Constituição; Finalidade 1. Introdução O presente estudo propõe-se a explicar o uso que faz Aristóteles da noção de amizade para desaprovar a constituição democrática no contex- to da discussão sobre a justiça na Política, III, 9, através da análise desta noção na Ética Nicomaqueia (EN),VIII. Na Política, III, 9, discute-se o tipo de justiça adequado à polis 2 . Aristóteles procura mostrar como constituições oligárquicas e democráti- cas têm concepções de justiça, ao contrário da tirania, que, justamente por 11 doispontos, Curitiba, São Carlos, vol. 7, n. 2, p.11-28, outubro, 2010