Revista de Medicina Desportiva informa maio 2021· 31 Tema Introdução O ombro é a articulação do corpo com maior arco de mobilidade, gra- ças ao seu desenho anatómico. 1 Esta particularidade confere, no entanto, uma maior predisposição para a instabilidade, já que em qualquer momento do arco de movimento apenas 25% da superfície articular da cabeça umeral contacta com a superfície da glenoide, dependendo em larga medida da complexa interação entre os estabilizadores estáticos (estruturas capsuloliga- mentares, ósseas e labrais) e dinâmi- cos (componente neuromuscular). 2 Tipos de instabilidade A instabilidade do ombro pode ser dividida em dois grandes grupos: instabilidade atraumática e traumá- tica. Instabilidade atraumática está relacionada com certas condições intrínsecas (por exemplo, doença de Ehlers-Danlos, síndrome de Mar- fan) ou extrínsecas (microtraumas resultantes do overuse em atletas) que predispõem o indivíduo a eventos de (sub)luxações do ombro. 3 A instabilidade traumática é resul- tante de um traumatismo direto ou indireto do ombro e é classificada segundo a direção da cabeça umeral em relação à superfície glenoideia, resultando em luxações anteriores, posteriores ou inferiores (luxatio erecta). 4 A luxação anterior do ombro representa cerca de 98% das luxa- ções traumáticas, sendo a luxação mais frequente do corpo humano, pelo que iremos abordar mais deta- lhadamente. Luxação traumática anterior do ombro Epidemiologia A incidência na população é de cerca de 23.9/100.00 habitantes, com uma taxa de incidência anual de 1,7% na população em geral, mais frequente no sexo masculino. 5 Apresenta uma distribuição bimodal, com um pico de incidência no grupo etário dos 15 aos 29 anos, relacionado com a prática desportiva e mecanismos traumáticos de alta cinética 6 e outro pico de incidência mais baixo no grupo etário dos 61 aos 80 anos, rela- cionado com traumatismos de baixa energia. 7 Os fatores de risco epide- miológicos incluem o sexo masculino, a idade inferior a 30 anos e a prática de desportos de contacto, sendo o futebol, o hóquei e o wrestling as modalidades mais com maior risco. 8 Avaliação clínica A história e avaliação clínica são fundamentais para o diagnóstico e podem conduzir a um elevado grau de suspeição de laxição anterior. O mecanismo lesional é, regra geral, um traumatismo direto com o ombro numa posição de abdução e rotação externa, provocando um quadro de impotência funcional súbita. Ao exame objetivo, o paciente apresenta-se numa posição antál- gica com o ombro em rotação interna em ligeira abdução e o cotovelo a 90º de flexão (figura 1), devendo o clínico procurar sinais de luxação anterior, como sejam: (1) sinal da cruzeta (incapacidade de palpação da cabeça umeral na face lateral do ombro); (2) perda do normal contorno do ombro com uma exacerbada proeminência acromial em comparação com o lado contralateral, havendo a possibili- dade de palpação direta da cabeça umeral numa posição anterior em indivíduos com biótipo ectomorfo. Emergência clínica A redução da luxação do ombro constitui uma emergência clínica. Porém, pelas possíveis consequên- cias neurovasculares e articulares, a manobra de recolocação nunca deverá ser realizada sem que antes se realize uma radiografia da arti- culação, com dupla incidência, de forma a excluir condições associa- das, como seja a fratura-luxação do Figura 1 – Luxação anterior do ombro direito (https://ombroecotovelodf.com.br/ instabilidade-do-ombro/) Rev. Medicina Desportiva informa, 2021; 12(3):31-33. https://doi.org/10.23911/Clinica_Dragao_2021_mai RESUMO / ABSTRACT A luxação anterior do ombro, sendo a luxação mais frequente do corpo humano, é uma condição que afeta os atletas profissionais e amadores, particularmente em desportos overhead ou de contacto. Apesar da sua elevada incidência, várias questões permanecem no seio do debate científico, com muitas questões ainda por esclarecer, tais como: qual o tipo e a duração de imobilização; qual o melhor tratamento para cada tipo de atleta; qual a melhor opção para o atleta que sofre o primeiro episódio de luxação do ombro durante a época desportiva; quais os critérios de retorno ao desporto. Este artigo pretende expor o estado da arte atual acerca desta temática. Anterior shoulder dislocation, as the most common dislocation in humans, is a condition affecting both professional and recreational athletes, particularly in overhead and contact sports. Despite its high incidence, several questions remain within the scientific debate, with many questions still to be clarified, such as: which type and duration of immobilization; what is the best treatment for each type of athlete; what is the best option for the athlete who suffers the first episode of shoulder dislocation during the sports season; which are the return to sports criteria. This article intends to expose the current state of the art on this theme. PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS Luxação do ombro, luxação anterior, lesão Bankart, lesão Hill-Sachs, tratamento Shoulder dislocation, anterior dislocation, Bankart injury, Hill-Sachs injury, treatment Luxação do Ombro: Avaliação e Tratamento Dr. Jóni Nunes, Dr. André Sarmento, Prof. Dra. Cristina Valente, Dr. Renato Andrade, Prof. Dr. João Espregueira-Mendes Clínica do Dragão, Espregueira-Mendes Sports Centre – FIFA Medical Centre of Excellence, Porto.