30 Intermedialidade, efeitos especiais ou como se apaixonar na ficção de Saramago Sara Grünhagen O maestro interrompeu o ensaio, […] pretende que nesta passagem os violoncelos, justamente os violoncelos, se façam ouvir sem parecer que soam, […] a arte é assim, tem cousas que parecem de todo impossíveis ao profano e afinal de con- tas não o eram. […] a vida é uma orquestra que sempre está tocando, afinada, desafinada, um paquete titanic que sempre se afunda e sempre volta à superfície. José Saramago, As Intermitências da Morte, p. 185-186 Como tantos outros escritores, José Saramago dispôs-se a tratar daqueles grandes temas da existência humana, grafáveis com inicial maiúscula: a Vida, a Morte e o que nesse intervalo pode acontecer, incluindo o Amor. Colocados nesses termos, porém, tais temas podem provocar cenhos franzidos em leitores mais exigentes, o que não seria de estranhar: a dificuldade de abordá-los tem que ver não apenas com o seu caráter universal e, o que também é consequên- cia disso, frequentemente banal, mas sobretudo com o facto de que a história da literatura não carece de narrativas sobre a vida, a morte e o amor. No caso deste último em particular, há ainda o receio de que até falar de amor possa parecer ingénuo, uma hesitação que reflete a dificuldade da escrita de maneira geral. Umberto Eco o expressou em sua reflexão sobre o que, a seu ver, seria «pós-moderno», enunciando aquela que é uma das principais estratégias da literatura: recorrer a palavras alheias, num jogo autoconsciente de citação que revisita e atualiza temas tão antigos quanto o homem1. Saramago também joga este jogo; no entanto, como buscarei mostrar, a estratégia da criação pela revisitação vai além da intertextualidade, das muitas formas pelas quais se pode recuperar o já dito: para falar de amor e do que mais lhe interessava tratar, Saramago vai servir-se igualmente de estratégias de representação próprias de outros media, razão pela qual recorro ao conceito de intermedialidade (cf. Wolf, 1999: 35-46; Ryan, 2006: 18-25). O recurso não é novo na literatura, mas uma diferença crucial de Saramago