101 Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 15, nº 2, pp. 101-110, 2022. O grito mais do que o horror: Deleuze e a violência sensível em Francis Bacon Matheus Barbosa Rodrigues Resumo: Partindo de Francis Bacon: Logique de la Sensation (1981), de Gilles Deleuze, nosso objetivo é determinar o papel da violência nos quadros de Francis Bacon. Em um primeiro momento, retomaremos os principais elementos da maneira com que Bacon torna visíveis forças invisíveis em sua pintura. Em seguida, elaboraremos a distinção deleuziana entre duas formas de violência, uma representativa e outra sensível. Para tanto, teremos como caso exemplar o “grito”, objeto da série de releituras que Bacon realiza do retrato do papa Inocêncio X, de Velásquez. Nosso intuito é iluminar uma leitura pouco convencional da estética baconiana: mais do que destacar das suas figuras deformadas a ausência de sentido da condição humana, trata-se de extrair delas um inesperado vitalismo. Palavras-chave: Deleuze, Francis Bacon, violência sensível, vitalismo. The scream more than the horror: Deleuze and the sensitive violence in Francis Bacon Abstract: Starting from Francis Bacon: Logique de la Sensation (1981), by Gilles Deleuze, our objective is to determine the role of violence in Francis Bacon's paintings. At first, we will return to the main elements of the way in which Bacon makes visible invisible forces in his painting. Then, we will elaborate the Deleuzian distinction between two forms of violence, one representative and the other sensitive. For that, we will have as an exemplary case the “cry”, object of the series of reinterpretations that Bacon performs of Velásquez's portrait of Pope Innocent X. Our aim is to bring to light an unconventional reading of Baconian aesthetics: rather than highlighting the lack of meaning of the human condition from their deformed figures, it is about extracting from them an unexpected vitalism. Keywords : Deleuze, Francis Bacon, sensitive violence, vitalism. 1. Introdução Frequentemente a arte europeia do pós-guerra é interpretada como pessimista, como retrato do niilismo inescapável depois dos horrores dos campos de batalha, peças do esgotamento diante da sociedade do trabalho, expressões da melancolia frente a um mundo em ruinas. Essa não deixa de ser uma maneira “sintomática” de ler os trabalhos de Beckett, de Kafka ou de Artaud, por exemplo, tanto na literatura quanto no teatro e no cinema. Na pintura, Doutorando em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Contato: matheus_b_rodrigues@hotmail.com. Este trabalho faz parte de uma pesquisa financiada pela FAPESP, processo n 2021/02383-0, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.