Instrumento Instrumento: R. Est. Pesq. Educ. Juiz de Fora, v. 12, n. 2, jul./dez. 2010 GÊNERO É UM CONCEITO COMPLEXO E DE DIFÍCIL SENSOCOMUNIZAÇÃO. CONSIDERAÇÕES A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA DE FORMAÇÃO DOCENTE Maria Eulina Pessoa de Carvalho* Resumo Este texto problematiza a compreensão e utilização do conceito de gênero a partir da análise de provas escritas de cursistas do componente curricular Seminários Temáticos de Prática Curricular II do Curso de Pedagogia, Educação Infantil, oferecido pela UAB/UFPB Virtual, na modalidade à distância, no segundo semestre de 2008, a professoras e professores em exercício no estado da Paraíba. O plano de curso visou socializar os resultados do Projeto de Pesquisa “Estudos de caso da prática docente enfocando as constru- ções e desconstruções das relações de gênero no cotidiano da educação infantil”, fnanciado pelo CNPq, e defniu como objetivos a compreensão do conceito de gênero e o delineamento de práticas pedagógicas promotoras da equidade e diversidade sexual e de gênero. A prova fnal propunha casos a serem comentados com base no que havia sido estudado, e solicitava o posicionamento e proposição pedagógica. As respostas aos casos revelam a permanência das noções dicotômicas naturais do gênero; discriminações e desigualda- des de sexo/gênero no cotidiano e na ação pedagógica; heteronormatividade e homofobia, e naturalização da violência masculina. O conceito de gênero é discutido, com base na teorização feminista, apontando- -se sua difícil compreensão e sensocomunização, pois questiona e desafa as identidades e relações pessoais; ademais, a experiência do gênero é em parte inconsciente, e está imbricada com a sexualidade e a religião. Entender gênero como habitus, uma estrutura psicossomática estável, explica sua persistência como prin- cípio de visão e de divisão social, de acordo com Pierre Bourdieu. Palavras-chave: Gênero. Habitus. Formação docente. Educação infantil. GÊNERO: UM CONCEITO EM DEBATE O conceito de gênero, entendido como construção cultural de feminilidade e masculinidade fundada na dife- rença sexual, foi estabelecido pela teoria feminista nos anos de 1970, visando desnaturalizar as diferenças e denunciar as desigualdades de sexo. Os seres humanos são biologicamente e geneticamente mais semelhantes do que diferentes, pois apenas um, entre 46 cromossomos, determina o sexo; contudo, nas sociedades modernas, a cada corpo humano é atribuído um lugar na estrutura binária e hierárquica do sexo e do gênero. As implicações da oposição binária de sexo e gênero são os sofrimentos e injustiças decorrentes do sexismo, do androcentrismo e do heterossexismo. * Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre Mulher e Relações de Sexo e Gênero – NIPAM. Universidade Federal da Paraíba – UFPB. mepcarv@ terra.com.br