Cisto cervical: maligno ou benigno? (1) Pós-graduando da Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. (2) Professor Associado da Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. (3) Médica Patologista do Laboratório Histocenter de Guarapuava, PR. (4) Médico Radiologista do Laboratório Histocenter de Guarapuava, PR. Instituição: Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. Correspondência: Rui Celso Martins Mamede, Rua Nélio Guimarães 170 – 14025-290 Ribeirão Preto- SP. E-mail : rcmmamed@fmrp.usp.br Recebido em: 08/12/-2006; aceito para publicação em: 10/01/2007. Relato de Caso Cervical cyst: malignant or benign? 1 David Livingstone Alves Figueiredo 2 Rui Celso Martins Mamede 1 José Raphael de Moura Campos Montoro 1 Rogério Costa Tiveron 1 Daniel Hardy Melo 1 Luiz Carlos Conti-Freitas 3 Michelle Gusmão de Assis 4 José Renato Benette Jeronymo RESUMO ABSTRACT Introdução: o carcinoma papilífero da tireóide pode apresentar-se a partir de uma metástase cervical. A presença de metástase cística cervical pode ser confundida com lesão benigna e postergar o tratamento adequado do carcinoma papilífero. Relato de caso: esse fato ocorreu com o caso apresentado o que nos trouxe ensinamentos. Trata-se de uma paciente jovem com lesão cervical cística há quatro anos, com ultra-sonografia compatível com lesão benigna. O exame histopatológico pós-operatório diagnosticou metástase de carcinoma papilífero de tireóide. Em nova ultra- sonografia, duas imagens nodulares menores que 1cm foram observadas na glândula tireóide. Discussão: a dificuldade de diagnóstico clínico, por imagem e por punção aspirativa por agulha fina das lesões císticas pode postergar o diagnóstico e, com isso, o tratamento. O caso aqui apresentado nos alerta de que não devemos aceitar ultra-sonografia cervical que não contenha o estudo da glândula tireóide, principalmente quando forem formações que possam significar metástases. Descritores: carcinoma papilífero; metástase cervical; cisto cervical. Introduction: the thyroid papillary carcinoma can present itself as cervical metastasis. The presence of cystic cervical metastasis can be confused with benign lesions and delay the treatment of papillary carcinoma. Case report: it occurred in the present case. We are reporting a case of a young female patient with a cystic cervical lesion for four years with ultrasonography (US) diagnostic compatible to a benign lesion. The patient underwent surgical resection and the histopathological analysis diagnosed metastasis of thyroid papillary carcinoma. Another US identified two nodes smaller than 1cm in the thyroid gland. Discussion: the difficulty of clinical and radiological diagnosis and the limitation of fine needle aspiration cytology of the cervical cystic lesions can delay the diagnosis and treatment. The cervical US without study of the thyroid cannot be accepted, specially when there is the possibility of a cervical metastasis. Key Words: papillary carcinoma; cervical metastasis; cervical cyst. INTRODUÇÃO O carcinoma papilífero é o câncer mais comum da tireóide, podendo usualmente apresentar-se inicialmente como nódulo tireoidiano, mas também como nódulo cervical metastático. Embora a maioria dos cistos cervicais em adultos jovens seja benigna, o carcinoma papilífero oculto pode manifestar-se 1,2 inicialmente como metástase cística cervical . As metástases sólidas não representam problema para o diagnóstico, porém, a presença de metástase cística cervical pode ser confundida com lesão cística benigna e, com isso, postergar o tratamento adequado do carcinoma papilífero. Esse fato ocorreu no caso apresentado. RELATO DO CASO Paciente do gênero feminino, com 30 anos de idade, apresenta, há quatro anos, nódulo cervical medindo cerca de 4cm de diâmetro, situado na borda anterior do músculo esternocleidomastóideo direito, sem outras alterações ao exame físico. A ultra-sonografia mostrava lesão cística bem delimitada, com paredes lisas e conteúdo homogêneo, medindo 4,9 x 2,7cm em topografia carotídea (nível II), à direita, sem outras alterações. A punção biópsia por agulha fina revelou quadro citológico compatível com cisto benigno. A paciente foi submetida à exérese da lesão sob anestesia geral e o exame anátomo-patológico revelou a presença de estrutura cística com parede de espessura variável entre 0,1 e 0,5cm, com superfície externa pardacenta e lisa e, à histopatologia, o diagnóstico de carcinoma papilífero metastático. Em outro ultra- som, a glândula tireóide apresentou-se com dimensões e contornos normais, apresentando duas imagens nodulares, localizadas no lobo direito, sendo uma bem delimitada, hiperecogênica, medido 7mm, na porção superior do lobo (Grau III) e a outra, mal delimitada, hipoecogênica, na porção média do lobo, medindo 9mm (Grau IV). Em nova cirurgia, a paciente foi submetida à tireoidectomia total e esvaziamento cervical modificado, incluindo nível VI bilateralmente. O estudo histopatológico revelou tratar-se de carcinoma papilífero (microcarcinoma esclerosante) multicêntrico, não encapsulado, Rev. Bras. Cir. Cabeça Pescoço, v. 36, nº 1, p. 47 - 48, janeiro / fevereiro / março 2007 47