DOI: 10.4025/cienccuidsaude.v10i5.17083 Cienc Cuid Saude 2012; 11(suplem.):251-258 _______________ * Enfermeira. Doutora em Saúde Pública. Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina. E- mail: macielalexandrina@gmail.com ** Enfermeira. Pós-Doutora em Saúde Pública. Professora Titular do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. E-mail: acdatana@usp.br SER/ESTAR PAI: UMA FIGURA DE IDENTIDADE Alexandrina Aparecida Maciel Cardelli* Ana Cristina d´Andretta Tanaka** RESUMO O objeto desta pesquisa foi repensar a identidade masculina frente à paternidade, na tentativa de se buscar uma nova definição para o ser homem, levando-se em consideração experiências adstritas à condição feminina. A população deste estudo qualitativo foi de 25 sujeitos, sendo dez pais e 15 profissionais de enfermagem. Os dados foram obtidos por meio de entrevista aberta, baseada em roteiro preliminar, realizada pelo pesquisador, e analisados à luz da Teoria da Identidade Social. Procurou-se trabalhar o conhecimento imediato dos pais, o conhecimento mediado de profissionais, baseado nas representações destes sobre o comportamento dos pais, e o conhecimento abstrato do pesquisador, embasado na literatura especializada e experiência profissional. Os resultados da análise do comportamento do homem mostraram um indivíduo que na busca da compreensão da vivência da paternidade, vem repensando seu papel, suas atitudes e principalmente suas emoções, conquistando novos espaços na construção de sua identidade. Por outro lado, na fala dos profissionais foram resgatados esteriótipos sociais sobre o comportamento desse homem, frente à paternidade, que o desqualificam. A reavaliação de nossas concepções é o caminho para mudanças em nossa prática no campo da saúde que contribuirão no processo de construção da identidade do novo homem. Palavras-clave: Paternidade. Gravidez. Enfermagem. Saúde Pública. INTRODUÇÃO O Mito A reprodução na Antiguidade era vista como um fenômeno puramente feminino, o homem foi quase que totalmente excluído do processo. Escapava à inteligência humana primitiva o ato oculto e misterioso da concepção (1) . Encontramos na literatura histórica, a mulher cultuada como a ‘grande deusa’, a ‘mãe sem esposo original com dom especial de produzir vida’. Sua menstruação era misturada à semente do trigo para que a semeadura anual tivesse melhor fertilização (2) . Quando se deu a descoberta da paternidade biológica no início da Idade do Ferro, há cerca de 3.500 anos, houve inversão de valores. O homem descobriu que não era a mulher quem detinha o poder da vida, mas ele próprio. Começou então o culto ao falo e este tornou-se a fonte não só de poder, mas de todo significado e ordem culturais (3) . Hoje em dia, observa-se a grande dificuldade dos homens em sentir-se como ser integral. Sua identidade parece estar localizada muito mais em seu sexo do que no que ele é, ou seja, como pensa, age e sente. Houve uma revolução dos valores e costumes nas relações de gênero e nas relações sociais, a mulher foi rebaixada da sua condição de deusa à condição humana e a questão da procriação foi o ponto de conflito. Alguns autores afirmam que esse declínio extrapolou o limite humano, considerando a mulher um ser inferior, sem inteligência que necessitava ser controlado e regulado, em total dependência do homem (4-5) . Os novos conhecimentos sobre a concepção levaram o homem a sentir-se libertado do seu estigma e passar a comandar, determinar a ordem social, por passar a ser o detentor do poder/semente, sem o qual a vida não é passível de existir. As características femininas desceram na escala de valores e as condições de gestação, parto, puerpério foram vinculadas, na nova lista de prioridades sociais, à manutenção da espécie e da força de trabalho. O novo modelo social, machista, preconizava a desvalorização das funções maternais e também domésticas, com supervalorização da realidade intelectual e econômica. Hoje, apesar de este ser um conceito desgastado e a expressão utilizada ser ‘modelo masculino’, na prática, a realidade não é