14 Revista Interdisciplinar de Estudos Experimentais, v. 2, n. 1, p. 14 - 21, 2010 HEMOCROMATOSE HEREDITáRIA RELACIONADA AO GENE HFE HEREDITARY HEMOCHROMATOSIS HFE GENE RELATED Karla Julião Villani*, Gladson Curcio Viana**, Giuliano Reder de Caravalho***, Aline Teixeira Guidine#, José Otávio do Amaral Corrêa##, Harleson Lopes de Mesquita### RESUMO A Hemocromatose Hereditária (HH) é a desordem hereditária mais comum em caucasianos. Mais de 90% dos casos de HH resultam da simples substituição do aminoácido Cisteína pela Tirosina no gene HFE. Essa mutação causa uma doença recessiva que resulta no acúmulo tissular de ferro. O mecanismo através do qual o HFE infuencia a homeostase do ferro nas células e no corpo permanece obscuro. A doença é subdiagnosticada na população em geral devido à inespecifcidade de sua apresentação clínica. O prognóstico envolve a detecção precoce da doença e a terapêutica adequada utilizando a febotomia em fase oportuna. Essa revisão descreve os conceitos atuais a respeito das manifestações clínicas, fsiopatologia, prognóstico e tratamento da Hemocromatose Hereditária relacionada ao gene HFE. PALAVRAS-CHAVE Hemocromatose hereditária. Gene HFE. Sobrecarga de ferro. ABSTRACT Hereditary hemochromatosis (HH) is the most common inherited disorder in caucasians. Over 90% of the cases of HH result from a single mutation of a Cys to Tyr in the HFE gene. Tis mutation causes a recessive disease resulting in iron acumulation in selected tissues. Te mechanism by which HFE infuences iron homeostasis in cells and in the body remains elusive. Te disease is underdiagnosed in general population due to inespecifc clinical manifestations. Prognosis is related to early diagnostic and correct treatment using pheblotomy. Tis review describe the current concepts concerning the clinical features, pathophisiology, prognosis and treatment of HFE-related hemochromatosis hereditary. KEY-WORDS Hereditary hemochromatosis. HFE gen. Iron overload. Correspondence author: Harleson Lopes de Mesquita - Universidade Presidente Antônio Carlos, CAMPUS VI, Juiz de Fora/MG. harlefar@hotmail.com. * Graduanda em Biomedicina pela Universidade Presidente Antônio Carlos/MG – karlavillani@yahoo.com.br. ** Graduando em Farmácia pela Faculdade de Farmácia do Centro Universitário Barra Mansa – UBM, Barra Mansa/RJ – glacurvi@gmail.com. *** Farmacêutico Bioquímico, Mestrando em Análises Clínicas, Adjunto da Universidade Presidente Antônio Carlos, CAMPUS VI, Juiz de Fora/MG, Adjunto do Centro Universitário Barra Mansa – UBM, Barra Mansa /RJ – giulianoreder@yahoo.com.br. # Graduada em Medicina, Universidade Presidente Antônio Carlos/MG, aline_ guidine@yahoo.com. ## Farmacêutico Bioquímico, Doutor em Patologia, Professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense, RJ. joacorrea@gmail.com. ### Farmacêutico Bioquímico, Mestre em Analises Clinicas, Adjunto da Universidade Presidente Antônio Carlos, CAMPUS VI, Juiz de Fora/MG, Adjunto do Centro Universitário Barra Mansa – UBM, Barra Mansa /RJ – harlefar@hotmail.com. Received: 03/2010 Accepted:05/2010 1 INTRODUÇÃO A Hemocromatose Hereditária (HH) é uma doença autossômica recessiva que se caracteriza por uma predisposição genética à absorção excessiva de ferro proveniente da dieta. Esta desordem hereditária acarreta em um acúmulo progressivo deste íon nas células parenquimatosas do fígado, pâncreas e coração. No estágio fnal de evolução, observam- ARTIGO ORIGINAL se danos estruturais e funcionais aos órgãos comprometidos. (ENNS, 2006). A principal mutação, C282Y(Cys282Tyr), presente no gene HFE é responsável pela forma comum da doença (SWINKELS et al., 2006). A Hemocromatose Hereditária é a doença genética mais comum nas populações caucasianas, a prevalência de homozigotos C282Y é de aproximadamente 1:227 e de heterozigotos é de até 1:10 (TAVILL et al., 2006). Nos países de origem caucasoide, como Canadá, Estados Unidos, França e Alemanha, 95% dos pacientes com HH apresentam homozigose para mutação C282Y. Entretanto, a mutação é ausente ou tem frequências alélicas baixas em populações não caucasianas, isto é, africanas, asiáticas e populações aborígenes australianas (ADAMS et al., 2005). No Brasil, os estudos de prevalência da HH são ainda muito escassos. Devido à grande mistura étnica de negroides, caucasoides e ameríndeos, a frequência da mutação pode sofrer variação se comparada a populações em outros países. Por se tratar de um país geografcamente grande, nota-se a ocorrência de diferentes frequências regionais devido às diferentes etnias que colonizaram cada região. Assim, a região Sul do país, com ascendência caucasoide, deve apresentar diferentes frequências para mutação Cys282Tyr quando comparada à população da região Nordeste, por exemplo, de origem predominantemente negroide (BITTENCOURT et al., 2002).