! ""#$%& 148 ’! ! ""#$%& Nietzsche, filósofo da suspeita Nietzsche, philosopher of suspicion André Martins * Data de recebimento: 08/12/2010 Data de aprovação: 20/12/2010 MARTON, Scarlett. Nietzsche, filósofo da suspeita. Rio de Janeiro: Casa da Palavra; São Paulo: Casa do Saber, 2010, 126 p. Desde que publicou seu primeiro livro, O Nascimento da tragédia, e ao longo de sua vida, Nietzsche foi mal interpretado. Após sua morte, sua filosofia foi ainda mais posta sob suspeita, torcida e distorcida, mas também, por outro lado, louvada e adorada. Sobretudo, ela foi utilizada para os fins mais diversos e antagônicos. Amada ou odiada, venerada ou combatida, mas muito raramente compreendida, o que a polêmica filosofia deste filósofo alemão que criticava a cultura alemã não suscitou foi a indiferença. Isso porque suas idéias criticam de maneira contundente – a golpes de martelo ou como dinamite, tal como o próprio Nietzsche descrevera – os pilares da cultura ocidental e das crenças que em geral, em sua época e na nossa, estruturam a vida social. O livro de Scarlett Marton, professora titular da USP, Nietzsche, filósofo da suspeita, analisa as quatro principais acusações feitas ao filósofo ao longo do século XX. A saber: que ele não seria um filósofo – há que se observar que as faculdades de Filosofia no exterior e no Brasil demoraram a aceitá-lo como tal e ainda hoje vige um sintomático preconceito de alguns a este respeito –, mas sim apenas um escritor, um poeta, um louco, cuja filosofia seria inaceitavelmente assistemática e contraditória; que sua filosofia seria precursora do nazismo; que Nietzsche seria um irracionalista e um niilista. O livro analisa ainda o estilo provocador de Nietzsche, e a relação desta forma de expressão com a própria filosofia que é assim apresentada. Nietzsche, filósofo da suspeita configura-se, assim, como um instrumento de combate, ao esclarecer pontos pelos quais a filosofia de Nietzsche sempre foi atacada, difamada, caluniada – porque mal compreendida. Como livro de introdução ao pensamento de Nietzsche, é através da análise de sua recepção e pela defesa do estudo de seu texto que Marton apresenta os princípios fundamentais de sua filosofia – notadamente uma bela exposição de sua interpretação acerca da vontade de potência e da teoria nietzschiana das forças. Trata-se, contudo, também de um livro para iniciados * Professor Associado da UFRJ, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ, Rio de Janeiro. RJ, Brasil. Contato: andre.mar@terra.com.br