Capítulo 41 - DOI:10.55232/1082026.41 LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO: QUAL A RELAÇÃO COM DISBIOSE INTESTINAL E DIETA? Jéssica Härter, Letícia Souza Muza, Ricardo Machado Xavier e Odirlei André Montacielo A microbiota intestinal humana contém diversos micro-organismos que colonizam as superfícies do trato gastrointestinal, cuja composição em indivíduos saudáveis é predominantemente das bactérias Gram-positivas Firmicutes seguidas pelas Gram-negativas Bacterioidetes. Na disbiose há uma alteração do microambiente comensal em relação às comunidades comensais encontradas em indivíduos saudáveis. Podemos citar três categorias não mutuamente exclusivas de classificação da disbiose: perda de micro-organismos benéficos, expansão de micro-organismos patogênicos/patobiontes e perda da diversidade microbiana. Em um dos primeiros estudos com indivíduos com LES e microbiota, demonstrou-se que os mesmos apresentavam diminuição da quantidade de Firmicutes quando comparado aos controles saudáveis, e redução da razão Firmicutes/Bacteroidetes. Esse desequilíbrio pode afetar a produção de ácidos graxos de cadeira curta (AGCC) pela microbiota. O butirato, um AGCC produzido pelos Firmicutes e conhecido pelo papel na saúde intestinal, interfere na diferenciação das células T regulatórias no intestino, baço e sistema linfático suprimindo a inflamação. Considerando que o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, a diminuição dos Firmicutes e a consequente redução de butirato poderia levar a desregulação do equilíbrio Treg/Th17, o que contribuiria para o estado inflamatório nesses pacientes. Aliado a esse contexto, uma resposta imune exacerbada pela grande quantidade de bactérias apresentadoras de antígenos como Bacteroidetes e Lachnospiraceae poderia ser responsável pelo aumento do risco cardiovascular em indivíduos com LES em função da perpetuação do estado inflamatório gerado. Esse fato é especialmente importante pois sabe-se que indivíduos com LES apresentam maior número de fatores de risco para doença cardiovascular em relação à população geral, como obesidade, dislipidemia e síndrome metabólica. Já o aumento de Bacteroidetes vem sendo relacionado ao aumento da atividade do Toll Like Receptor-4 (TLR-4), fato que pode estar associado ao desenvolvimento espontâneo de LES. Um outro aspecto que está ligado à eubiose ou disbiose da microbiota intestinal é a dieta e o estado nutricional, pois parece haver diferenças na microbiota intestinal de indivíduos magros e obesos e entre indivíduos que apresentam diferentes hábitos alimentares. A obesidade poderia influenciar na resposta imune e contribuir para a patogênese de LES. Isso estaria relacionado não somente a alterações nas adipocinas, deficiência de vitamina D, mas também à disbiose intestinal causada por dietas ricas em gorduras. Por outro lado, dieta rica em fibras está associada a diminuição da pressão arterial, melhora do perfil metabólico, além de levar a mudanças na microbiota intestinal que tem um efeito protetor. A dieta mediterrânea é rica em ácidos graxos poli-insaturados, fibras, polifenóis, vitaminas e elementos traço como zinco, ferro e selênio e poderia reduzir a inflamação e a disbiose, pois auxiliaria no balanço de Th17/Treg e promoveria manutenção da Página 363