ARTIGO DE REVISÃO Revista Científca da Ordem dos Médicos www.actamedicaportuguesa.com 749 Neuroimagem e Biomarcadores no Prognóstico Funcional de Doentes com Acidente Vascular Cerebral Neuroimaging and Blood Biomarkers in Functional Prognosis after Stroke 1. Serviço de Medicina Física e de Reabilitação. Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais. Tocha. Portugal. 2. Serviço de Medicina Física e de Reabilitação. Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Coimbra. Portugal. 3. Serviço de Neurologia. Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Coimbra. Portugal. Autor correspondente: João Paulo Branco. joaobrancofmuc@hotmail.com Recebido: 18 de janeiro de 2016 - Aceite: 08 de agosto de 2016 | Copyright © Ordem dos Médicos 2016 João Paulo BRANCO 1 , Joana Santos COSTA 2 , João SARGENTO-FREITAS 3 , Sandra OLIVEIRA 2 , Bruno MENDES 1 , Jorge LAÍNS 1 , João PINHEIRO 2 Acta Med Port 2016 Nov;29(11):749-754 http://dx.doi.org/10.20344/amp.7411 RESUMO Introdução: O acidente vascular cerebral é uma das principais causas de mortalidade e morbilidade em todo o mundo, associando-se a considerável incapacidade funcional. Atualmente sabe-se que tanto técnicas de neuroimagem como determinados biomarcadores fornecem informações úteis acerca da etiologia, decisão terapêutica, follow-up e prognóstico em doentes com acidente vascular cere- bral isquémico. Assiste-se, porém, a um interesse particular na previsão do prognóstico vital em detrimento do prognóstico funcional. Antecipar o prognóstico funcional permitiria defnir um programa de reabilitação adequado, objetivo e individualizado, com uma aloca- ção de recursos mais efciente. O presente trabalho tem como objetivo rever o conhecimento atual acerca do papel da neuroimagem e dos biomarcadores sanguíneos em fase aguda na previsão da recuperação funcional dos doentes que sobrevivem a um acidente vascular cerebral isquémico. Material e Métodos: Revisão da literatura publicada entre 2005 e 2015, em língua inglesa, utilizando os termos “ischemic stroke”, “neuroimaging” e “blood biomarkers”. Resultados: Foram selecionados nove artigos com base na leitura dos resumos. Discussão: Técnicas de neuroimagem como a tomografa computorizada, a ecografa doppler transcraniana, a angiografa cerebral e a imagem de difusão por ressonância magnética apresentam potencial preditivo do prognóstico funcional do acidente vascular cerebral, nomeadamente através da avaliação do fuxo sanguíneo e do volume e localização da lesão, sobretudo quando usados em associação com a National Institutes of Health Stroke Scale. Vários biomarcadores têm sido estudados como potenciais marcadores de diagnóstico, estratifcação de risco e previsão de prognóstico no acidente vascular cerebral, em particular a S100 calcium binding protein B, a proteína C-reativa, as metaloproteinases de matriz e o peptídeo natriurético cerebral. Conclusão: Apesar de alguns biomarcadores e técnicas de neuroimagem revelarem capacidade preditiva, nenhum dos estudos com estas metodologias, isoladamente ou em associação, é capaz de sustentar a validação de um potencial modelo clínico preditivo de funcionalidade, revelando-se assim insufcientes na determinação precisa, nas primeiras horas após o acidente vascular cerebral, do prognóstico funcional aos três meses. Considera-se que são necessários mais estudos nesta área para o seu esclarecimento. Palavras-chave: Acidente Vascular Cerebral; Biomarcadores/sangue; Neuroimagem; Prognóstico; Recuperação Funcional. ABSTRACT Introduction: Stroke remains one of the leading causes of morbidity and mortality around the world and it is associated with an important long-term functional disability. Some neuroimaging resources and certain peripheral blood or cerebrospinal fuid proteins can give important information about etiology, therapeutic approach, follow-up and functional prognosis in acute ischemic stroke patients. However, among the scientifc community, there is currently more interest in the stroke vital prognosis over the functional prognosis. Predicting the functional prognosis during acute phase would allow more objective rehabilitation programs and better management of the available resources. The aim of this work is to review the potential role of acute phase neuroimaging and blood biomarkers as functional recovery predictors after ischemic stroke. Material and Methods: Review of the literature published between 2005 and 2015, in English, using the terms “ischemic stroke”, “neuroimaging” e “blood biomarkers”. Results: We included nine studies, based on abstract reading. Discussion: Computerized tomography, transcranial doppler ultrasound and diffuse magnetic resonance imaging show potential predictive value, based on the blood fow study and the evaluation of stroke’s volume and localization, especially when combined with the National Institutes of Health Stroke Scale. Several biomarkers have been studied as diagnostic, risk stratifcation and prognostic tools, namely the S100 calcium binding protein B, C-reactive protein, matrix metalloproteinases and cerebral natriuretic peptide. Conclusion: Although some biomarkers and neuroimaging techniques have potential predictive value, none of the studies were able to support its use, alone or in association, as a clinically useful functionality predictor model. All the evaluated markers were considered insuffcient to predict functional prognosis at three months, when applied in the frst hours after stroke. Additional studies are necessary to identify reliable predictive markers for functional prognosis after ischemic stroke. Keyword: Biomarkers/blood; Neuroimaging; Prognosis; Recovery of Function; Stroke. INTRODUÇÃO O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser uma patologia associada a elevada morbilidade e mortalidade. A maioria é de natureza isquémica e ocorre principalmente em indivíduos com idade superior a 65 anos, sendo a ate- rosclerose a causa mais frequente. Atualmente a lesão vascular cerebral é considerada