NASCER E CRESCER revista do hospital de crianças maria pia ano 2012, vol XXI, n.º 1 25 casos clínicos case reports Endocardite infecciosa num recém-nascido pré-termo RESUMO Introdução: A endocardite infecciosa é uma situação rara mas grave no período neonatal. Caso clínico: Os autores descrevem o caso clínico de um recém-nascido, pré-termo de 31 semanas que ao 15º dia de vida apresentou quadro séptico pelo que iniciou antibioticoterapia. Nas hemoculturas efectuadas isolou-se Staphylococus aureus, sensível aos antibióticos prescritos e o cateter epicutâneo-cava introduzido no sexto dia de vida foi nesta altura substituído. Ao 25º dia detectou-se sopro sistólico grau II/VI, tendo o ecocar- diograma mostrado imagem sugestiva de vegetação na válvula tricúspide (dimensões-8,5x4mm). Por suspeita de endocardite bacteriana, efectuou tratamento com vancomicina, gentamicina e rifampicina. As hemoculturas posteriores foram estéreis e não se verificou aumento do tamanho da vegetação. Em ambulatório manteve-se clinicamente bem e actualmente, com nove meses de idade corrigida apresenta vegetação de 3x3mm. Conclusão: A suspeita de endocardite bacteriana deve ser considerada nos recém-nascidos com sépsis hospitalar, interna- dos numa Unidade de Cuidados Intensivos, com colocação de cateter venoso central, sobretudo se os agentes envolvidos são o Staphylococcus aureus ou fungos. A base do tratamento é um curso prolongado de antibioticoterapia com um regime bacterici- da apropriado. Contudo a mortalidade permanece elevada. Palavras-chave: catéteres venosos centrais, endocardite, recém-nascido pré-termo, Staphylococus aureus. Nascer e Crescer 2012; 21(1): 25-27 INTRODUÇÃO O diagnóstico de endocardite infecciosa (EI) no período ne- onatal, apesar de pouco frequente, tem vindo a aumentar, devido à maior sobrevivência de recém-nascidos (RN) pré-termo que requerem técnicas invasivas, nomeadamente catéteres venosos centrais (1,2) . A incidência estimada é de 0,07% em RN internados em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (1) . Estima-se que cerca de 8-10% dos casos de EI diagnosticada na popula- ção pediátrica ocorra no período neonatal (3) . A etiopatogenia é complexa, mas na maioria dos casos associa-se a lesão a ní- vel do endocárdio ou endotélio vascular que expõe o colagéneo subendotelial, promovendo a deposição de fibrina e plaquetas, dando origem a vegetações trombóticas não infecciosas (1,2,3,4,5) . Durante episódios de bacteriémia ocorre colonização da super- fície atingida, levando à formação de vegetações infectadas. Pode ocorrer em RN com cardiopatia congénita, mas mais fre- quentemente surge em RN com coração estruturalmente normal, que necessitam de catéteres venosos centrais para alimentação parentérica (1) . Os sinais e sintomas são inespecíficos. Pode não haver febre, mesmo na presença de septicémia (3) . Laboratorial- mente caracteriza-se por aumento dos marcadores de infecção, trombocitopenia e geralmente hemoculturas persistentemente positivas. A presença de vegetações no ecocardiograma é su- gestiva do diagnóstico, mas a sua ausência não o exclui (alguns ecógrafos não permitem visualização de vegetações inferiores a 2mm) (2,4) . Nos doentes sem cardiopatia congénita, surgem fre- quentemente na válvula tricúspide. Os principais microorganis- mos envolvidos são o Staphylococcus aureus, Staphylococcus coagulase negativos, gram negativos (Klebsiella pneumoniae, Enterobacter cloacae e Enterococcus faecalis) e fungos. Os critérios de Duke modificados revistos em 2005 são os mais consensuais para o diagnóstico desta patologia. São divi- didos em critérios maiores e menores, considerando-se casos confirmados aqueles que reúnem dois critérios maiores ou um critério maior e três menores ou cinco critérios menores, e casos possíveis aqueles que cumprem um critério maior e um menor ou três menores (6) . Critérios maiores: 1) Hemocultura positiva - isolamento de agentes comuns de EI em duas hemo- culturas distintas, na ausência de foco primário; - microorganismo compatível com EI isolado em hemo- culturas persistentemente positivas; - única cultura ou serologia positiva para Coxiella burnetii; 2) Evidência de envolvimento do endocárdio - Ecocardiograma sugestivo (oscilação de massa intra- cardíaca na válvula ou estruturas adjacentes; em ma- terial protésico na ausência de explicação anatómica alternativa; abcesso; deiscência parcial de novo de prótese valvular; insuficiência valvular de novo). Cristiana Ribeiro 1 , Marta Rios 1 , Luísa Lopes 1 , Sílvia Álvares 2 , Elisa Proença 1 , Ana Guedes 1 __________ 1 S. Neonatologia, Maternidade Júlio Dinis, CH Porto 2 S. Cardiologia Pediátrica, H Maria Pia, CH Porto