71 TRANSPORTE, MOBILIDADE URBANA E SERVIÇO SOCIAL: QUANDO O URBANO EXTRAPOLA A POLÍTICA URBANA 1 Daniele Batista Brandt Introdução O uso do transporte para deslocamento no espaço é uma das atividades mais presentes em nosso cotidiano. Esse uso se realiza pelo consumo de mercadorias que satisfazem necessidades humanas “do es- tômago ou da fantasia” para a reprodução social, como também na cir- culação entre moradia-trabalho-moradia e outros destinos, conforme as condições de vida e de trabalho dos sujeitos. Em que pese as condições desse uso sejam profundamente diminuídas, ao ser subordinado pela tro- ca na dinâmica de valorização do capital e, consequentemente, ao reiterar diferenças e desigualdades socioespaciais, essa relação mercantil no uso do transporte e do espaço aparece como fato quase natural, em um coti- diano programado para o consumo. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 (IBGE, 2019), as despesas com transporte correspondem a 18,1% da despesa de consumo média mensal das famílias brasileiras, mas esse dado cai para 9,4%, ao observar a distribuição de gastos das famílias com menores ren- dimentos. Isso, considerando aqueles que possuem alguma renda para fnanciar tal despesa pois, segundo o Relatório 2018 do Sistema de In- formações da Mobilidade Urbana da Associação Nacional de Transpor- tes Público (ANTP, 2020), a maior parte das viagens foi realizada em transporte não motorizado, ou seja, por bicicleta ou a pé (42%) e as de- mais em transporte individual motorizado (30%), em transporte coletivo motorizado (24%), e uma menor quantidade em transporte coletivo sobre trilhos (4%). A re-produção das relações sociais de produção que incidem so- bre o espaço e que o espaço re-produz vão repercutir no maior ou menor 1 DOI- 10.29388/978-65-81417-77-2-0-f.71-96