Felipe Recondo. Tanques e togas: o STF durante a ditadura. São Paulo, Companhia das Letras, 2018. 334 pp. Carlos Artur Gallo Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-0111-4400 Na Argentina, em julho e em novembro de 2017, juízes das Províncias de Mendoza e Córdoba, respectivamente, foram julgados, condenados e levados à prisão por terem colaborado com a repressão praticada durante a ditadura (1976- 1983). No Chile, em julho de 2018, oito agentes da repressão envolvidos na detenção, tortura e morte do cantor e compositor Victor Jara, as- sassinado poucos dias após o Golpe de Estado que iniciou a ditadura comandada por Augusto Pinochet de 1973 a 1990, foram condenados pela justiça chilena por sua participação no crime. Poucos dias antes da sentença chilena ser profe- rida, o Estado brasileiro foi condenado pela Cor- te Interamericana de Direitos Humanos (cidh), organismo vinculada à Organização dos Estados Americanos (oea), por não investigar, identif- car, processar e punir os agentes da repressão que participaram da prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida em 1975. Fatos como esses que foram mencionados podem parecer, para algumas pessoas, questões menos importantes diante da instabilidade e das incertezas presentes no contexto político brasi- leiro pós-2016, bem como quando comparados a outros problemas existentes em qualquer um dos países da região. O passado recente brasileiro, assim como o dos seus vizinhos do Cone Sul, que também passaram por ditaduras alinhadas aos preceitos da Doutrina de Segurança Nacional (dsn) no contexto da Guerra Fria, talvez possua relevância analítica e conexão com o presente muito mais profundas do que pode ser presumido à primeira vista. No que tange à relevância analítica do tema, é visível, na última década, um incremento no que se refere ao número de estudos que estão sendo realizados sobre a ditadura no Brasil (1964-1985). Basta fazer uma rápida pesquisa na base de dados do Scielo Brasil e/ou no banco de dissertações e teses da Capes, que é possível encontrar uma quantidade signifcativa de no- vos artigos, resenhas, dissertações e teses que, oriundos das mais diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais, têm ajudado a interpretar e reinterpretar fatos e efeitos da ditadura na histó- ria política recente do país. Algo que, em parte, talvez ajude a entender o aumento do interesse de pesquisadores e pes- quisadoras pelo tema, é uma conjuntura marcada por pelo menos três acontecimentos relaciona- dos com o regime autoritário brasileiro: (1) os trabalhos da Comissão da Anistia, que a partir de 2002 começou a avançar no que se refere à