DOI: 10.4025/4cih.pphuem.037 NARRATIVAS FEMININAS SOBRE O HEROÍSMO MASCULINO: AS FRONTEIRAS DO GÊNERO Marta Gouveia de Oliveira Rovai Doutoranda em História Social pela USP/NEHO No dia 17 de julho de 1968, a população de Osasco vivenciou os efeitos de uma greve operária. Iniciado na fábrica da Cobrasma, então uma das empresas mais importantes da cidade, o movimento vinha sendo organizado há meses pelos trabalhadores, em plena Ditadura Militar. A “ousadia” da organização teve origem na vitória, em 1967, da chamada “Chapa Verde” nas eleições para a diretoria do sindicato dos metalúrgicos. Apesar das intervenções sindicais promovidas pelo governo nos anos 60, os trabalhadores conseguiram burlar a censura e promover uma aliança inédita, marca singular da greve: uma diretoria com representantes de operário e estudantes. Muitos operários estudavam à noite e traziam para a fábrica a discussão política mais ampliada. Alguns já estavam, naquele momento, envolvidos com grupos clandestinos, como a Vanguarda Popular Revolucionária e consideravam a organização da comissão de fábrica e do sindicato um dos caminhos para a conscientização e uma possível revolução. Alguns fatos colaboraram para que a greve, prevista para o segundo semestre de 1968, fosse antecipada para julho: uma outra paralisação na cidade de Contagem, em Minas Gerais; o confronto com policiais na Praça da Sé durante a comemoração do 1 o . de Maio e, em certa medida, todo o contexto político do país marcado por manifestações estudantis. Esses acontecimentos foram interpretados pelos organizadores osasquenses como elementos fortalecedores do enfretamento com o regime. Iniciado pela manhã, a partir de um sinal – o apito tocado por um trabalhador – o movimento teve pouca duração. Às dez horas da noite, as forças militares já haviam invadido a fábrica ocupada pelos grevistas e reprimido brutalmente os operários. A brevidade da manifestação, no entanto, não tornou o evento menos importante para aqueles que o vivenciaram. Pelo contrário, as consequências que se seguiram à repressão mudou radicalmente a vida de muitos sindicalistas, estudantes e representantes da comissão fabril: desemprego, prisão, tortura, exílio e até mesmo a morte.