66 R. FREIRE ET AL GE Vol. 13 Artigo Original / Original Article INTERFERÃO PEGUILADO E RIBAVIRINA EM DOENTES COM HEPATITE C CRÓNICA SEM RESPOSTA SUSTENTADA AO INTERFERÃO STANDARD E RI- BAVIRINA R FREIRE, J. MANGUALDE, A. M. VIEIRA, C. LOBATO, C. PINHO, A. ALVES, F. AUGUSTO, A. P. OLIVEIRA Resumo Introdução: Apesar de submetidos a tratamento, muitos dos doentes com hepatite C crónica permanecem infecta- dos. Com o interferão peguilado e ribavirina, a resposta virológica sustentada ultrapassou os 50%, um acréscimo de 17 a 25% comparativamente ao interferão standard e ribavirina. Tal facto poderá fundamentar o retratamento dos doentes sem resposta a tratamentos anteriores. Objectivos: Avaliar a eficácia do tratamento com interferão peguilado e ribavirina, após falência do interferão standard e ribavirina. Identificar factores preditivos de boa respos- ta. Doentes e Métodos: Análise retrospectiva dos doentes retra- tados com interferão peguilado e ribavirina após falência do interferão standard e ribavirina. Resultados: Identificaram-se 27 doentes (78% do sexo mas- culino, média de idades de 43 anos). O genótipo 1 foi iden- tificado em 23 doentes. Catorze tinham virémias superiores a 500.000 UI/L. Quinze doentes tinham efectuado interfe- rão standard em monoterapia. Todos cumpriram tratamen- to com interferão standard e ribavirina, sendo a resposta nula em dois terços. Com o retratamento (interferão peguilado e ribavirina), a resposta sustentada atingiu 25,9% (7 doentes). Os factores preditivos de boa resposta foram: resposta virológica precoce ao retratamento e ausência de curso prévio de interferão em monoterapia. Conclusões: O retratamento deverá ser considerado, sobre- tudo se estiverem presentes os factores preditivos de boa resposta. Summary Introduction: Treatment failures were frequent before pe- ginterferon and ribavirin become standard therapy for chronic hepatitis C. Overall, a sustained virologic response can now be achieved in over 50% of patients, a 17-25% higher rate than that with standard interferon and ri- bavirin, which may sustain a retreatment strategy for patients with no response to previous therapies. Aims: To evaluate the effectiveness of retreatment with peginterferon and ribavirin in patients who failed treat- ment with standard interferon and ribavirin and to identi- fy factors associated with a favourable outcome. Patients and Methods: Retrospective analysis of patients retreated with peginterferon and ribavirin after treatment failure with standard interferon and ribavirin. Results: Twenty-seven patients were included (78% male, mean age of 43 years, 85% with genotype 1). Serum HCV RNA was higher than 500.000 IU/L in 14 patients. Fifteen patients had been previously treated with standard inter- feron monotherapy. All were treated with, and failed, stan- dard interferon and ribavirin. With retreatment (peginter- feron and ribavirin), a sustained response was achieved in 25,9% (7 patients). Factors associated with a favourable outcome were early virologic response on retreatment and absence of previous interferon monotherapy. Conclusions: Retreatment should be considered, particu- larly in selected patients with factors predictive of a favourable outcome. Serviço de Gastrenterologia, Hospital S. Bernardo, Setúbal, Portugal. GE - J Port Gastrenterol 2006, 13: 66-74 INTRODUÇÃO A hepatite C crónica, doença considerada emergente pela OMS, constitui um importante problema de saúde pública a nível mundial (1). Em Portugal, 1,2% dos dadores de sangue são positivos para o anticorpo do vírus da hepatite C, (2) estimando-se uma prevalência, na população geral, de aproximadamente 1,5% (3). Apesar do conhecido défice de notificações, dos casos de hepatite C declarados no nosso país entre 2000 e 2004, 87,3% (776/889) correspondem a indivíduos jovens, na faixa etária dos 15 aos 44 anos (4). Considerando o carácter insidioso desta patologia, com um potencial de evolução para cirrose hepática de 5 a 20% ao longo de 20 a 25 anos (5,6), dos quais 30% pro- gride para doença hepática terminal ao fim de 10 anos (7) e, paralelamente, que 1 a 4% ao ano desenvolve car- cinoma hepatocelular, (7,8) é de prever que, nos próxi- mos anos, venhamos a assistir à sua real repercussão, em termos de saúde pública em Portugal, com um acréscimo substancial do número de casos de cirrose hepática e car- cinoma hepatocelular associados à hepatite C. Nos últimos 10 a 15 anos, temos assistido a conside- ráveis avanços terapêuticos nesta área. Com o esquema Recebido para publicação: 16/01/2006 Aceite para publicação: 01/03/2006