Terceira Margem Rio de Janeiro Número 24 ฀p.฀85-107฀ janeiro/junho 2011 ฀85 DA฀DIALÉTICA฀DA฀INToXICAÇÃo฀EM฀NAKED฀LUNCH José฀Carlos฀Felix Charles Ponte Fabio Akcelrud Durão Na sequência inicial de Mistérios e paixões [Naked Lunch] (1991) – flme de David Cronenberg, adaptação livre do livro de mesmo nome (1959), de William S. Burroughs –, chama a atenção o conteúdo do diálogo entre Hank e Martin (Nicholas Campbell e Michael Zelni- ker), em uma cena que pode ser descrita como trivial, se comparada à profusão de criaturas, personagens e alucinações bizarras que povoam o flme. Nessa cena, dois amigos aspirantes a escritor expõem, acalo- radamente, suas visões distintas acerca do processo de escrita. Para o primeiro, a singularidade da experiência engendrada nos procedimen- tos de composição literária só pode ser alcançada caso o texto não sofra nenhum tipo alteração, ou qualquer sorte de edição que interfra na espontaneidade e no ritmo das palavras; já Martin, por sua vez, acre- dita que é somente através de um trabalho laborioso e contínuo de reescrita que um texto pode atingir um estado pleno de excelência, “de equilíbrio”, em suas palavras. De fato, não é necessário muito esforço para identifcar nesse breve episódio uma reencenação do confronto de concepções antagônicas cravado no cerne das estéticas vanguardistas que marcaram as primeiras décadas do século passado: de um lado, o desejo pelo controle absoluto do processo de composição literária, fru- to de um obstinado e diligente trabalho de depuração da escrita, alude ao estilo de escritores modernistas como James Joyce, Virginia Woolf e T. S. Eliot. Em contrapartida, a opção pelo acaso e a aleatoriedade como procedimentos centrais no processo de criação, além de remeter aos notórios movimentos dadaísta e surrealista, frma ao mesmo tempo uma patente sugestão acerca da demasiada ressonância e infuência que tais experimentos estéticos exerceram sobre as gerações seguintes de escritores, como em John Cage, por exemplo. No caso de Burroughs,